Professor Orlando
História de Vida
Eu me chamo Orlando Vieira Furtado Filho. Tenho 52 anos. Nasci no RJ em 10 de janeiro de 1970. Sou de uma família humilde, sendo um dos 5 filhos. Meu pai faleceu quando tinha 11 anos de idade por assassinato num restaurante. Quando essa tragédia aconteceu, minha vida ficou muito difícil porque minha mãe não teve apoio da família do meu pai pois ela não era casada com ele e é negra.
Após minha mãe organizar a vida, foi morar com minhas irmãs e meu padrasto noutra cidade do estado do RJ. Eu não queria dar trabalho pois ela devia cuidar das minhas 4 irmãs. Então, depois de uma breve passada pela cidade de Itaguaí, fiquei inicialmente morando com os meus avós juntamente com alguns tios e primos num apartamento de 2 quartos.
Minha vida era muito difícil! Começando pela manhã, quando não podia acordar depois dos outros 9 primos porque não sobrava café da manhã. Então, quem acordasse cedo, e comprasse o pão na barraca, tinha direito de tomar café completo (pão, margarina e café preto com açúcar).
Como não tinha qualificação nenhuma e não podia ficar sem dinheiro para as minhas necessidades pois minha mãe tinha as minhas irmãs para cuidar, e quando conseguia mandar o pouco dinheiro era fruto de muito esforço de lavagem e costura de roupa. Então, inicialmente vendi minha bicicleta - que ganhei de aniversário do meu pai quando era vivo – e depois comecei a catar ferro-velho nas ruas do RJ, particularmente no bairro da Taquara, próximo a Cidade de Deus. De dia, procurava, principalmente, os fios de cobre nas obras e caçambas com caliças. Alternava esse “trabalho” com as aulas do Ensino Fundamental. Eu ia para a escola principalmente para merendar mas tinha vergonha dos meus colegas pois encarnavam em quem ia comer aquela comida. Então, eu ia comer escondido deles e garantia pelo menos uma refeição ao dia.
Quando fiz 14 anos, consegui um emprego no mercado de empacotador e entregador de compras nas Casas Sendas. Neste mercado, eu conseguia 1 prato de comida mas não tinha salário. Conseguia gorjetas dos clientes após entregar de carrinho de mercado as compras durante o meio-expediente que ficava lá.
Após as Casas Sendas, fiz uma seleção para trabalhar no Mcdonald aos 16 anos de idade. Foi uma época boa pois tinha comida, principalmente quando trabalhei no horário de expediente de fechamento (das 19 às 02:00), quando levava para casa alguns alimentos que sobravam e era autorizado pelo chefe.
Ao término do Ensino Fundamental, como não tinha condições de pagar um colégio para cursar o Ensino Médio (na época era chamado de Científico), fiz um concurso para o Colégio Brigadeiro Short. Pensei que não fosse ser aprovado, pois muitos prestavam e não passavam mas consegui. Nessa época, optei por estudar à noite e parei de trabalhar no Mcdonald mas voltei a catar ferro-velho.
No colégio Brigadeiro, soube, por meio de um colega, do concurso para a Escola de Sargento das Armas (ESA). Fiquei bem empolgado mas alguns colegas falaram comigo “você não vai passar porque normalmente quem é aprovado faz curso preparatório”. Então, pedi alguns cursos apoio mas nenhum me deu. Alguns tios falavam para arrumar emprego de flanelinha ou catar bolas de golfe no campo da Gávea. Alguns familiares e colegas falavam que pobre não tinham que estudar e sim trabalhar. Entretanto, comentei que iria me dedicar e passar mais um pouco de necessidade mas iria dar um jeito para estudar para o concurso.
Foi quando comecei a me virar! Acordava cedo e, quando ia comprar o pão, sempre olhava os latões de lixo discretamente para ver se alguém havia deixado livros. Após tomar o café, voltava ao local e rápida e discretamente pegava os livros do lixo pois tinha vergonha. Além de conseguir livros assim, estudava na biblioteca pública nos intervalos do recreio e quando algum professor faltava. Como não tinha dinheiro para comprar cadernos, pedia para o meu tio Joel (trabalhava numa gráfica) para prensar as páginas amarelas que sobravam para fazer meus cadernos. Além disso - para estudar matemática e ciências - como o apartamento estava sempre cheio e eu tinha vergonha porque os meus parentes toda hora falavam que tinha que trabalhar ao invés de estudar, eu ia de manhã para trás do prédio onde pegava restos de carvão das fogueiras ou tijolo quebrado para estudar matemática, resolvendo os problemas no piso de concreto.
Um pouco antes do concurso para Sargento, fui ajudar meu primo Willian na mudança e sofri um acidente (meu primo estava na parte de baixo da escada e tropeçou e eu para o fogão não cair encima dele, puxei o fogão para o meu lado) na mão direita quando fiquei muito triste pois era somente destro. Então, comecei a treinar escrever com a mão esquerda, tornando-me ambidestro na época. Após algumas semanas já adaptado, novamente tive outro problema de saúde faltando 2 dias para a prova. Fui acometido de uma gripe forte! Lembro que minha querida mãe preparou um xarope de mel com folha de laranjeira. Ainda estava gripado quando fiz a prova no Maracanã lotado.
Após todo o sofrimento e dedicação, consegui ser aprovado no concurso para a Escola de Sargento das Armas (ESA) em 1988. Quando cheguei à cidade de Três Corações, onde está localizada a ESA, fiquei muito feliz pois, depois de muitos anos, tinha 4 refeições (café, almoço, janta e ceia) e voltei a dormir numa cama. Antes, dormia sobre um cobertor quadriculado no chão do apartamento da minha avó e tinha como travesseiro os meus chinelos de dedo. Ficava com vergonha e triste quando algum visitante ia cedo ao Apto e me via dormindo no chão!
O curso não foi fácil. Próximo ao fim, eu me acidentei na Pista de Pentatlo Militar. Tive uma luxação no ombro esquerdo em que fiquei com todo o tronco engessado por 2 meses, tendo instruções desse jeito. Sugeriram-me, trancar o curso porque não daria tempo de eu me preparar para o teste físico final (subir numa corda lisa vertical de 6 metros). Então, não desanimei e comecei a treinar nadar cachorrinho e fazer outros exercícios diariamente. No dia do teste físico, com muito esforço, consegui subir o mínimo para ser aprovado mas quase sofri um acidente na descida com um deslize da mão na corda. Deus estava do meu lado e deu tudo certo!
Após concluí-lo, fui morar na cidade do Alegrete-RS onde me apresentei em 1º de dezembro de 1989. Aí começa o meu amor pelas pessoas e pelo estado maravilhoso do Rio Grande do Sul! Adoro o RS! Aqui comecei uma vida nova após ter tido uma pré-adolescência e uma adolescência muito difícil no Rio de Janeiro.
Como tinha estudado somente o 1º ano do Ensino Médio (EM), comecei a estudar em casa para fazer as provas do Exame Supletivo do EM. Fiz as provas na cidade de Uruguaiana-RS. Após concluir o EM, pensei em fazer faculdade de Biologia e prestar o concurso para o Oficialato mas não tive incentivo de muitos colegas. Eles falavam “Você não vai passar porque quem passa está nas capitais e fazendo cursos preparatórios” para o concurso da Escola de Administração do Exército (EsAEx). Então, fiz o vestibular para a antiga Fundação Educacional do Alegre e comecei, à noite, a graduação em Biologia em 1993. Foi uma época de muito estudo e muitas dificuldades. Eu era 3º Sargento e não ganhava bem, frequentemente pegava empréstimos para complementar a renda familiar pois já tinha um filho com 2 anos e a minha esposa da época não trabalhava. Além dos problemas financeiros, tinha as intensas atividades do quartel onde servia. Lembro que, após chegar de uma marcha de 32 Km a pé, dei uma lavada no corpo, peguei a minha bicicleta e fui para a faculdade, saindo 23 horas e pedalei alguns Km para chegar à minha casa no frio do inverno do Alegre. Estudava muito nessa época sempre que tinha oportunidade. Estudava nas filas de banco ou de mercado, quando andava a pé, quando almoçava rápido e saia mais cedo e, também, acordava 1 hora antes de ir para o trabalho. Valeu à pena, um ano após concluir a graduação, em 1997, fui aprovado no concurso para ser Oficial do Exército.
Após ser aprovado no concurso, fui para Salvador-BA, onde cursei o Curso de Formação de Oficial em 1998. Concluindo o referido curso, escolhi morar em Brasília-DF. Após 1 ano ministrando aulas de Biologia no Colégio Militar de Brasília (CMB), resolvi prestar o concurso para o Mestrado em Biologia Molecular na Universidade de Brasília (UnB). Novamente, os colegas me desanimaram falando que eu poderia até passar na prova mas não iria ser aprovado na entrevista porque a UnB não gostava de militares. Não desanimei, peguei o programa, comecei a procurar os livros que consegui por indicações dos professores pois o Programa de Pós-graduação (PPG) de Biologia Molecular da época (ano de 2000) não indicava referências bibliográficas. Com muita luta, consegui 1 a 1 os livros indicados pelos professores, li todos na íntegra e fui aprovado nas 6 provas (bioquímica, biofísica, biologia celular, biologia molecular, microbiologia e inglês). Faltava a entrevista dos 20 primeiros aprovados para 8 vagas do PPG, fiz a entrevista e passei. Lembro que os 6 professores da banca ficaram abismados (de eu ter feito a minha graduação numa faculdade pequena e sem muitos recursos na época) e me perguntaram espantados:
- quanto tempo você se preparou?
- alguém te orientou para a prova?
- o que você achou da prova?
Após concluir o curso que durou 2 anos e meio, resolvi retornar ao RS. Então, fui transferido para o Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA), chegando em dezembro de 2004. Em dezembro de 2005, fui promovido ao posto de Capitão. Em 2007, consegui entrar no doutorado em Biologia Celular e Molecular, do Centro de Biotecnologia da UFRGS. Após 5 anos de curso, cumprir todos os requisitos e defender a tese, recebi o título de Doutor em Biologia Celular e Molecular em 2012. Em abril de 2013, fui promovido ao posto de Major do Exército onde permaneci até 2019, quando pedi reserva após 15 anos de Professor de Biologia no Colégio Militar de Porto Alegre, ministrando aula em todas as séries (da 6ª série do EF a 3ª série do EM) e ocupando várias funções no CMB e CMPA além de professor (coordenador de disciplina da série, chefe da cadeira de CFB, da cadeira de Biologia, Chefe da Seção “C” (das subseções de Biologia, Física e Química) e Coordenador Pedagógico de várias séries no CMB e CMPA. No período de 2016 a 2019, na Unyleya, realizei os cursos de Especialização em (1) Engenharia Genética e (2) Fitoterapia. Atualmente, realizo estágio de Pós-doutorado na Universidade Federal de Ciências da Saúde (UFCSPA).
Como militar, fui comandante de grupo de pelotão de engenharia, chefe de garagem, auxiliar da 3ª seção e comandante de pelotão. Após 30 anos de serviços prestados ao nosso país, servindo em Três Corações, Alegrete, Salvador, Brasília e Porto Alegre, como biólogo, militar, pesquisador e professor, decidi fixar residência na capital dos gaúchos e morar neste estado onde sou muito feliz!
Agora, pretendo ajudar com a minha experiência de trajetória de vida, de Professor, de Militar e de Cientista na Assembleia Legislativa do Brasil como Deputado!
Que o nosso grande Deus, com a sua imensa bondade, continue me acompanhando nessa nova jornada, como sempre me acompanhou até agora!!!
